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Fantasma da Orquestra

A melancolia crónica de uma pseudo violinista maluca.

A melancolia crónica de uma pseudo violinista maluca.

Ainda sobre festas de crianças

Começo a aperceber-me, com absoluto horror, que podia facilmente desdobrar-me para mãe do meu irmão. Temos treze anos de diferença, e apesar de nos meus vinte e quatro muitos não me darem mais que quinze, há quem nos veja os três, pai e irmãos, e simplesmente faça um casal mais rebento. E já não seria a primeira vez.

Nas festas das criancinhas em que familiares convidam os amigos, então, deve ser um enlevo, porque quem é que lá fica com o rebento? Pois.

 

Excepto que eu não consigo ser mãe. Nada do que faço dá a menor impressão de ser mãe, ou pelo menos algo que as amigas chiques dos meus primos possam considerar ser mãe. Sei lá. Nunca lhes perguntei. O primeiro ponto é que eu não gosto lá muito delas, das conversas delas sobre putos saudáveis, alimentação e como criar um filho como deve ser. Uma pessoa como eu, de preto e com cabelo semi-curto semi-ondulado-encaracolado escuro, destoa gritantemente das senhoras bem vestidas e de cabelos pintados de loiro e escorridos, tão bem penteados.

Depois, em vez de andar atrás do rebento a ver se ele não se magoa ou não faz nenhum disparate e apenas brinque na piscina de bolinhas (olhem, tentem lá convencer um gaiato de dez anos a isso, a sério), eu alapo-me ao lado da bancada da comida e enfio pipocas na boca como se não tivesse comido nada por três meses. E quem diz pipocas diz gomas, bolachas, fatias de salame, rissóis, pastéis de bacalhau, gelatinas, o que houver. O meu irmão não come quase nada durante as festas. Eu aspiro metade da mesa. Não nos tratamos por você. Tratamo-nos por tu, estúpido(a), idiota, cagarola, e por aí vai...

Algumas criancinhas de menos de cinco anos vêem falar comigo, inocentes. Não consigo perceber ponta de um chavelho do que dizem, nunca, e acho que elas também não percebem nada.

Na mesa estava o bolo de anos da menina. Com uma imagem do Frozen, claro está. As mães todas acham apenas que está bonito, e o quão engraçada a menina é, que gosta das princesinhas do gelo. Eu olhei, e, sinceramente, fiquei a tentar adivinhar em qual dos olhos das bonecas é que a vela ficava melhor espetada (e olhem que eu até gosto do Frozen, imagina se eu não gostasse). Concluí que no olho direito da Anna ficava a matar.

 

Como é que eu ainda sou convidada para festas com crianças?

 

Esta menina em questão é só a minha sobrinha luso-húngara (sobrinha adotada porque ela é na verdade minha prima já em terceiro ou quarto grau) e das únicas meninas que eu faço questão de adorar. Um raiozinho de luz ao lado da minha morbidez. Uma querida.